“Trabalhar, comprar, morrer…” – uma crítica do atual modelo de consumo

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Nunca se comprou tanto como nos dias atuais. Olhando pela ótica capitalista, todo este consumismo é muito conveniente, afinal, comprar faz girar a economia, gerando empregos e lucros.Porém, olhando por outro lado, o consumo desenfreado causa desigualdades por todo o mundo e cada vez mais explora nossos recursos naturais limitados.

Desde crianças somos moldados para nos transformarmos em consumidores, e já na escola aprendemos que devemos produzir e consumir. Aprendemos que o sucesso é relacionado com o que você tem e com seu poder de compra. Se você tem o carro do ano, um celular moderno, roupas de marca, então é considerada uma pessoa de sucesso. E se você não se adequar a esse estilo, ou seja, se você não tem carro novo, celular e roupas novas, muito provavelmente você será um “excluído”.

O consumismo é muitas vezes uma ferramenta de compensação e a maioria das pessoas compra por compulsão. O ato de comprar traz uma felicidade momentânea para o consumidor: no momento em que ele se sente triste, acha que comprando algo sua tristeza irá passar, mas na verdade a tristeza é apenas esquecida por alguns instantes.

Todo esse consumismo não nos dá boas perspectivas sociais, nem ambientais. Hoje presenciamos o aumento das dívidas da população, porque muitos querem ter o que os ricos têm, mas como não dispõe dos mesmos salários, acabam entrando em cheque especial, financeiras e dívidas crescentes com o cartão de crédito. Também vemos aumento da criminalidade, por conta da desigualdade social. No aspecto ambiental, o lixo produzido está aumentando cada dia mais, as pessoas compram e nem sempre dão o destino correto para os produtos usados.

A exploração dos recursos naturais causada pelo consumo desenfreado é atualmente um dos principais problemas do meio ambiente. Só os EUA, que representam 4,5% da população mundial, são responsáveis pelo consumo de 40% de todo nosso recurso natural disponível. Existe também o grande número de emissões de CO2 (dióxido de carbono) lançados anualmente. De acordo com Stephen Pacala, professor da Universidade de Princeton, New Jersey, as 500 milhões de pessoas mais ricas do mundo – aproximadamente 7% da população mundial – são responsáveis pela emissão de 50% de CO2 na atmosfera, enquanto as 3 bilhões de pessoas mais pobres, só emitem 6%.

E todo o lixo produzido? Para onde vai? As empresas de tecnologia lançam novos produtos todos os meses, o que faz com que consumidores comprem esses novos produtos e acabem abandonando os velhos, que muitas vezes não possuem um descarte correto, acabando em aterros sanitários e assim contaminam o solo e os lençóis freáticos.

A importância de sabermos de onde vem e para onde vão os produtos que consumimos

Antes de comprar algo, devemos conhecer a empresa e saber todo ou quase todo o processo de produção. Devemos saber se a empresa possui alguma iniciativa de coleta dos seus produtos ou embalagens para o descarte correto e se a empresa respeita as leis ambientais.

É importante saber também sobre a qualidade de vida dos empregados, porque ainda hoje vemos muitos casos de trabalho escravo, principalmente em países subdesenvolvidos onde as pessoas, não tendo outra opção, acabam por ter péssimas condições de trabalhos, cargas de horários longas e salários extremamente baixos.

Recentemente, uma consumidora encontrou um pedido de socorro na etiqueta de uma roupa que comprou, que dizia: “Somos forçados a trabalhar por horas exaustivas”. A peça de roupa é da marca Primark, que é conhecida por vender roupas a um preço mais barato e já foi investigada outras vezes a respeito de trabalho escravo na Índia. Leia a reportagem na integra – Mulher compra vestido e encontra um pedido de socorro na etiqueta.

Devemos também nos conscientizar do destino final dos produtos por nós consumidos. Após a aprovação em 2010 da lei do PNRS (Plano Nacional de Resíduos Sólidos), o governo brasileiro também se atentou para o destino do lixo.Por isso, juntamente com a PNRS, o governo aprovou e vem trabalhando duro na Logística Reversa, que nada mais é que uma lei que obriga as empresas coletarem e fornecerem um destino ecologicamente correto para seus produtos.

Para saber mais: Leia o artigo do nosso colunista Romário Souza explicando as diferenças entre “Disposição e Destinação”. http://eugestor.com/editoriais/2014/07/destinacao-x-disposicao-qual-a-diferenca/

No entanto, não podemos depender apenas dos fabricantes, temos que fazer a nossa parte. Separar os lixos recicláveis já não é mais suficiente; é importante na hora da compra, preferir produtos que não utilizem tanta embalagem e que sejam de fácil reciclagem.

Do ponto de vista do planeta, não existe jogar o lixo fora, até porque não existe fora.

Nadando contra a maré

É possível viver sem dinheiro? Ou sem comprar?
Para responder a essa pergunta, apresentarei dois casos: o primeiro é de um homem que tinha tudo, mas resolveu largar e viver sem dinheiro; o segundo caso é uma alemã que resolveu não comprar nada durante 1 ano.Em ambos os casos, a experiência virou livro.

Mark Boyle, um irlandês formado em administração de empresas, decidiu se desligar da sociedade atual e viver aproximadamente 3 anos sem nenhum dinheiro. Ele come o que planta, toma banho em um rio e, para cozinhar, utiliza uma fogueira. Segundo Boyle, a atual sociedade está levando o planeta para o buraco, arruinando a vida de nossos semelhantes e arruinando a natureza; além disso, Boyle diz que a culpa disso tudo está no dinheiro e na nossa idolatria a um papel. Mas o ativista não é nenhum “ermitão”:a partir de um notebook alimentado por energia solar, ele mantém um blog atualizado para promover suas idéias, seu estilo de vida e juntar adeptos. Você pode conferir a matéria completa no link – Mark Boyle, o homem que vive sem dinheiro.

O outro caso é o da jornalista alemã Greta Taubert, que viveu durante 12 meses apenas de escambo e da agricultura orgânica. Segundo Greta, os alimentos eram obtidos através de uma horta comunitária e a carne conseguida a partir de caça. A alemã chegou ao ponto de fabricar seus próprios produtos de higiene pessoal, como pasta de dente, shampoo e desodorante.Toda a experiência vivida por Greta foi contada no livro “O apocalipse agora”. Confira no link a reportagem completa – Alemã passa um ano sem gastar praticamente nada.

É possível sim, nadar contra a maré, ou seja, não se render ao atual modelo de consumo e comprar apenas o necessário. Afinal, quando morrermos, não levaremos nada conosco. Não precisamos ter dezenas de pares de calçados; não precisamos comprar roupas para cada festa; não necessitamos de closets imensos com roupas que nunca usaremos.

O consumo é importante para a geração de empregos e a economia, todos nós precisamos consumir, afinal, necessitamos nos alimentar, nos vestir, e o consumo é,sim, uma atividade saudável quando praticada com consciência. O problema é que o consumo está se tornando uma arma de destruição do planeta, cada vez mais nossos recursos naturais limitados estão se tornando escassos; as pessoas se preocupando mais com o “Ter” do que com o “Ser”. O título “trabalhar, comprar, morrer…” critica o nosso atual sistema de consumo, onde muitos têm trabalhos que não gostam para comprar coisas que não precisam.

Precisamos parar e refletir sobre o que estamos fazendo e o que deixaremos de legado para a futura geração. Ser uma pessoa de sucesso não é só ter o carro do ano, um celular novo ou se vestir com roupas de marcas; ter sucesso é ser feliz no seu trabalho, ter uma família em harmonia, uma pessoa que o apoia e ama: isso é ter e ser sucesso.

Viva para ter experiências e não para ter coisas. Passe mais tempo com quem você ama e quem gosta de você. Não troque uma tarde no parque do que uma ida ao shopping; coisas, produtos e carros nunca terão sentimentos porque são frutos da indústria, e não os torne mais importante do que pessoas.

“Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o

que lhe fosse necessário, não havia pobreza no mundo e ninguém morreria de fome.”

Mahatma Gandhi

Curitiba, PR, 22 de Julho de 2014

Bruno Sanches – Gestor Ambiental
brnsalvador@hotmail.com